segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mãe África, preciso partir...

Antes de partir quero me despedir e não sei bem como. Quando comecei organizar a mala, entregar pastas, rever documentos das paróquias, fotos, anotações pessoais e mensagens das comunidades, me veio no coração palavras de gratidão.
Agradeço-te mãe áfrica que a mim se mostrou no seu realismo, diverso da visão romântica dos safáris e dos programas turísticos. Convivi com uma parcela muito pequena de teus filhos e filhas do imenso continente. Particularmente a mim você se mostrou no povo mackua do norte Moçambicano. Gente simples e resistente que trabalha na machamba (roça) e caminha diariamente a procura de água para beber, cozinhar e tomar banho.
Alegrei-me quando a mim se revelou na imensidão de crianças que andam e brincam em grupos. Também cansei de tanto ser olhado e admirado por elas em toda parte. Com elas brinquei e quebrei protocolos da oficialidade das visitas nas comunidades. Elas fazem parte da tua fecundidade e riqueza. Peço aos teus filhos adultos que as considere melhor, organizando esteiras para sentarem nas celebrações e tratando-as com igualdade na hora de comer e vestir.
Surpreendi-me com o universo juvenil de teu povo. São eles pai ou mãe de muitos filhos e até mesmo avó e avô dizendo-se jovem, dançando, cantando e rezando como tal. Foram muitas partilhas, formações e descobertas. Seus cânticos, danças e batuques dão vida às liturgias e festas.
Admirei-me vendo tuas filhas indo para machamba (roça) vestidas de coloridas capulanas, carregando seus filhos nas costas e trazendo pote de água ou lenha na cabeça. Elas expressam a luta cotidiana do teu povo em busca sobrevivência. Há um longo caminho a percorrer para sua promoção e inclusão social. Elas ainda são na realidade um grito silencioso por liberdade.
Com teu povo vive as dores da malária que mata multidões pelo frágil sistema de saúde. Aqui a média de vida do teu povo é 40 anos. As doenças que mais matam já têm cura em outros países, mas teus filhos não tem acesso. Morrem sem saber a causa.
Com tuas pequenas comunidades ministeriais, me encantei, rezei, celebrei sacramentos, dancei, silenciei, dormi em tuas palhotas, nas esteiras e nas camas de corda. Nada me faltou. Mas com elas também me decepcionei pela fragilidade em fazer dos ministérios, cargos e cadeiras de poder. É verdade que teus filhos sofreram e sofrem influências de todo lado: do colonialismo português, das guerras, das ideologias importadas, do tribalismo e do regime atual de governo que fazem de ti o que na origem não és. Contudo, mesmo nas minhas decepções, ainda te vejo hospitaleira, simples, mística, acolhedora da palavra de Deus e aberta ao Espírito.
As lideranças mais velhas me dizem que as comunidades eram mais evangélicas naquele tempo de perseguição e guerra. Escondidas, rezavam no mato sem poder acender fogo para que o inimigo não lhe descobrisse. Teus filhos andavam mais a pé em busca da palavra e da eucaristia. Eram poucos os teus ministros ordenados e te manteves na fé pascal que formou muitas comunidades. Agora teus sonhos estão a mudar. Os cristãos pensam em te cobrir com chapas de zinco, dizendo que a palha dá muito trabalho. Algumas de tuas igrejas já levam nome do dono, deixando de ser comunidade cristã que se constrói na liberdade e na participação de todos.
Pois é mãe áfrica, “o progresso” com suas contradições, chegou a ti. As caminhadas a pé deram lugar as bicicletas e hoje as motos viraram sonho de consumo dos camponeses. A quem já se divorciou depois que comprou motorizada. A cultura dominante já entrou pela música, novelas, roupas, plástico e modas. Tuas vilas com energia elétrica esbanjam invasão capitalista. Tuas feiras nos interiores são pequenos mercados globais. Tuas florestas, teus minérios e tuas riquezas naturais viraram mercadoria para os países ricos. Tua madeira é levada em toneladas diariamente pelos chineses.
Conheci pouco de tua religião tradicional. Mas sei de sua influência no coração do povo. Penso que há valores e limites nela. Pode promover vida, mas também pode levar ao medo, a morte e a opressão dos teus filhos. Há histórias dos que conseguiram a cura e também dos que já morreram nas mãos de feiticeiros que usam drogas e venenos.
Mãe áfrica, uma voz grita no teu deserto. Tuas crianças, jovens, homens e mulheres, velhos, reis e camponeses estão a gritar por justiça, paz, comida, acesso a água, educação e saúde.
Confesso que em 2008 atravessei oceanos com a missão de te evangelizar. Espero que nestes anos te ajudei na construção do Reino de Deus. Mas creio também que você me evangelizou, me acolheu e amadureceu meu coração de pastor. Agradeço pela paciência que teve comigo. Nestes anos carreguei um tesouro em vasos de barro. Por isso, peço desculpas pelos meus erros.
Finalizo expressando que fui muito feliz com teu povo nesta missão, não sei se da mesma forma eles foram felizes com minha presença. Mãe África, chegou meu tempo de partir com o coração agradecido. Obrigado (Koxukuro). Já vou (Korowa).





Pe.Maurício da Silva Jardim
Dezembro de 2011.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Missão entre as missões

A missão faz refletir à missão. Mais de três anos passaram desde minha partida do Brasil até Moçambique. Neste tempo, cresceu-me a consciência de que a iniciativa e provocação missionária foi graça do Espírito de Deus. Já na chegada me perguntava: Qual missão entre tantas missões estou sendo convocado?
O cotidiano carregado de surpresas e imprevistos, intercalado com a escuta orante da Palavra de Deus me fez pensar sobre o essencial e o conjunto da missão. Em África onde se fala e vive a pobreza absoluta, somos tentados fazer da missão um dar coisas, reformar antigas estruturas ou cair nas lógicas falidas de nosso mundo onde o dinheiro aparentemente resolva tudo. Missão para e não missão com. Ao chegar vive-se este dilema. O que fazer?
Nós missionários estrangeiros ainda somos vistos como aqueles que podem dar. Somos brancos, temos carro, casa bem situada e não nos falta comida e água. Muitos vem até nós com a expressão mackua “Mukivahe” que significa dá-me. Com mãos estendidas as crianças nos encontram vindo do mercado e nos dizem: “dá-me pão”. Se dermos pão a uma, outras aguardam nossa atitude e esperam também receber. Também nos pedem carona, medicamentos, dinheiro, emprego, cimento para construir capelas, poços nas comunidades, apoio para pequenas associações, cadernos, canetas, bicicletas, pastas e há aqueles que pedem Bíblias, terços e livros.
As marcas deixadas pelo colonialismo português, aqui acampado durante séculos, a situação de pobrezas sociais, a guerra civil, a situação política corrompida e as organizações não governamentais que aqui atuam, contribuíram e contribuem para esta mentalidade de receber. Os que chegam na missão em Moçambique passam por esta dúvida e por este teste: Dar ou não dar aquilo que te pedem. Assim fui aprendendo que é preciso dizer não, para dizer sim a um projeto de missão que construa e fortaleça pequenas comunidades ministeriais e autônomas.
A atitude de colocar-se como fraco, pobre e necessitado já é missão. Jesus nos recomenda: “Vão!...não levem bolsa, nem sacola, nem sandálias”(Lc10, 3-4). A Missão evangélica se faz com meios pobres, sem barulho, sem arrogância de visibilidade e sem demonstração de força com meios poderosos onde transita altos valores econômicos. A atividade missionária dos discípulos de Jesus tem raízes pobres e atitude permanente de fé e confiança no Espírito que atua silenciosamente nos corações.
A missão entre as missões carrega um conteúdo de paz e de anúncio de que o Reino chegou. “Digam primeiro: A paz esteja nesta casa!” (Lc10,5b); “curem os doentes e digam ao povo: O Reino de Deus está próximo de vocês” (Lc10,9). Deus envia para cidades e lugares onde Ele próprio devia ir. E lhes dizia: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos”(Lc10,2). Missão de colheita. O que significa? Antes de chegarmos aos lugares concretos de missão, Deus já chegou bem antes e fez todo trabalho da graça de preparar a terra, semear, limpar e fazer crescer. Basta de nós a paciência da espera, a escuta, o conhecimento do terreno, a identificação dos frutos e a colheita propriamente dita.
Estando nas missões, ainda peregrino na busca do essencial da missão. O tesouro escondido do Reino onde habita corações apaixonados. Já descobri que o mais importante não é dar coisas, mas dar a si mesmo e partilhar dons recebidos. Valeu atravessar oceanos na busca e na oferta daquilo que a traça e a ferrugem não podem destruir. “Busquem o Reino, e Deus vos dará todas as coisas como acréscimo” (Lc12,31).
Ainda sonho que o projeto missionário que nos enviou continue oferecendo de sua pobreza, padres, irmãs e leigos(as) a outras dioceses necessitadas de Moçambique como Lichinga e também a outros países do continente africano. Não tenhamos medo, o Pai de ternura que nos envia, cuida, veste, protege, ampara e alimenta seus filhos.


Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Tempo e missão

Completados três anos na missão, tenho refletido e partilhado sobre o tempo. O tempo cronológico, o tempo como fato ou acontecimento, o “tempo perdido”, o tempo real e o tempo que se faz missão na gratuidade. Concepções múltiplas sobre o tempo que definem estilos e projetos de vida.
Nas reflexões sobre o tempo tenho como base dois mundos. Aquele ao qual sou filho e este ao qual vivo como missionário. Entre as lógicas moçambicanas do povo macua e as nossas lógicas globalizadas, o tempo é marcado ou vivido de modos diversos. O tempo como força que envelhece, mata, distancia, produz e lucra e o tempo como gratuidade, perda, ausência e direito de ser “inútil e improdutivo”.
Aqui na missão acostumamos dizer que um dia parece ter muito tempo. O tempo não é medido e acelerado. O dia termina ou inicia com expressões: “já anoiteceu e já amanheceu”. A noite é feita para dormir. Não se faz mais nada ao anoitecer, além do jantar e do encontro familiar. No ritmo diário se faz uma coisa de cada vez e o tempo real parece ser bem aproveitado. Também se aprende viver e desfrutar do momento presente sem precisar fazer nada. Estar com os outros, ouvi-los ou simplesmente amá-los sem necessidade de produzir, ensinar ou dar algo. A impressão que dá é que o tempo é nosso. Foi dado a nós como oportunidade de estar todo nele na missão que Deus nos confiou.
Neste mundo de poucos relógios e agendas, não se festeja aniversários. Ninguém conhece o dia, mês ou ano de nascimento. As referências são pessoas, acontecimentos ou fatos marcantes. Nasceu no tempo do padre Camilo, antes do ciclone, quando o Morola era rei da tribo. Assim o que determina categorias, idades e fases da vida são outras referências.
No mundo que nasci, onde os relógios estão em toda parte, ouvi sempre pessoas falarem que não tem mais tempo. O tempo lhes foi roubado. Os ladrões ocuparam todo o tempo com agendas lotadas. O paradoxal desta lógica é que não ter mais tempo dá uma satisfação de herói. Convivem conosco estes heróis que há anos não fazem férias e não encontram tempo para si e para os outros, como se tudo dependesse deles. São estes que recebem lugar de destaque e são reconhecidos como vencedores, contudo se tornaram escravos do tempo. Ocupar o tempo desta forma pode dar a sensação de nada ter feito ao término de cada dia, ou ainda mais trágico, nada ter feito no final da vida.
Sem verbalizar agimos como se o tempo fosse dinheiro, por isso não devemos perdê-lo. Desde criança, “nossos educadores” nos ensinaram as leis do mercado competitivo que não admite perdas de tempo. Quem ocupar todo seu tempo chegará por primeiro. Chegará ao topo com muito sucesso e dinheiro, no entanto sem tempo.
Na missão descobri que nós temos o relógio, o calendário e as agendas, mas os africanos é que têm o tempo. Tempo que é governado pelas fases de preparo da terra, plantio, cuidado, colheita e queimadas. Há tempo de espera e de comercialização do produto. Tempo de seca e de chuvas. Tempo de fome e fartura. Tempo de calor e frio. Tempo dos sacramentos e das formações. Na realidade há tempo para tudo e até hoje não ouvi de um moçambicano que não tenho mais tempo.
Aqui os donos do tempo me ensinaram que missão se faz na gratuidade que não se mede e codifica. A missão acontece mais na dimensão do ser que abre brechas no tempo, do que do simples fazer produtivo. Neste sentido, valeram mais as horas e os dias de presença gratuita nas visitas em comunidades.
Assim espero que estas reflexões provoquem novas atitudes e novos olhares sobre o tempo na sua relação com a missão. Que o Pai, dono da missão, continue dando aos trabalhadores da última hora o mesmo salário.

Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Cândido dos Anjos

Era o nome de nosso sentinela. Vigiou a casa dos padres em Moma por mais de quinze anos, mesmo em épocas sem moradores. Tinha viva a história das pessoas que por ali passaram. Em meio seus cadernos trazia fotos e lembranças daqueles e daquelas que acompanhara nesta casa. Matava saudades simplesmente vendo imagens. Às vezes com suspiros, lamentava do vai e vêm dos habitantes, brancos e estrangeiros, que tampouco acostumara e já era tempo de voltar ao seu país. Mas concluía: “é assim mesmo a vida de missionários, não param”.
A doença que o levou a morte me fez entrar no sistema de saúde mais desumano que já conheci. Em Moma, “há hospital”, onde os doentes estão em tendas de lonas ao lado de um lindo prédio que iniciou sua reforma em 2008. O ministério da saúde ainda não liberou a migração dos doentes das precárias tendas para as novas estruturas por falta de instalações adequadas de água. É comum que pacientes cheguem até a emergência e as consultas com doenças graves e recebam paracetamol ou medicamentos coloridos, sem diagnóstico preciso. A maioria dos casos são encaminhados para cidade de Nampula que fica 210 Km. Mesmo as mulheres que necessitam de cesariana devem ser encaminhadas, pois em Moma não há sala de cirurgias. Há apenas um silencioso sofrimento com morte das mães com suas crianças.
Em Nampula, onde existe um hospital referência para todo norte do país, chegam doentes de vários distritos e províncias em busca de saúde. É mais uma estação desta via sacra. Lá existem poucos médicos especialistas. Chegamos até uma médica de Cuba, urologista. A única para todo o norte com esta especialidade. Quando conseguimos consulta, logo encaminhou internação do Cândido num imenso dormitório superlotado. Havia doentes por todo lado, alguns sentados em cadeiras, porque as camas estavam lotadas e outros deitados em colchões espalhados pelos corredores. Ali naquele calvário de dores e mau cheiro tivemos que deixar nosso amigo sentinela. Não havia outra solução. Fomos buscar vida e sentimos cheiro de morte em todo canto.
Ficou hospitalizado um mês, esperando que lhe fizessem ecografia total. A única máquina era disputada por multidões e ficou parada por uma semana em manutenção. Lá muitas vezes acompanhamos a cruz pesada do Cândido, embora nele não havia revolta e desespero. Logo que saiu o diagnóstico de câncer de bexiga, foi imediatamente liberado para voltar a Moma. Já não havia nada o que fazer. Restara o consolo de voltar a terra onde foi gerado para assim despedir-se. Desde sua chegada em casa, no seu leito sempre haviam vigias da familia que em silêncio contemplavam sua dor.
Depois de sua morte, fui procurar no dicionário qual o significado de Cândido: “inocente, puro”. É assim mesmo. Ele como tantos que conheci em Moçambique são inocentes e puros de coração, vivem na periferia das lógicas ocidentais que aprisionam pessoas e as colocam correndo na mesma direção.
Nenhuma força conseguira acorrentar nosso sentinela. Em meio a dor, paradoxalmente não perdera a serenidade. Morreu pobre e livre. Foi um bem aventurado. Já em vida, dividira seus bens. Ultimamente repetia que viera ao mundo sem nada e voltaria para casa do pai sem nada. Lembrei destas palavras quando fomos ao túmulo no terceiro dia plantar a cruz e flores. Como de costume, entre os cristãos, na madrugada se reúnem na casa do falecido e com orações caminham até o cemitério na certeza da ressurreição e do grão de trigo que morre e produz frutos. Neste dia ninguém mais chorou.

Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique