Completados três anos na missão, tenho refletido e partilhado sobre o tempo. O tempo cronológico, o tempo como fato ou acontecimento, o “tempo perdido”, o tempo real e o tempo que se faz missão na gratuidade. Concepções múltiplas sobre o tempo que definem estilos e projetos de vida.
Nas reflexões sobre o tempo tenho como base dois mundos. Aquele ao qual sou filho e este ao qual vivo como missionário. Entre as lógicas moçambicanas do povo macua e as nossas lógicas globalizadas, o tempo é marcado ou vivido de modos diversos. O tempo como força que envelhece, mata, distancia, produz e lucra e o tempo como gratuidade, perda, ausência e direito de ser “inútil e improdutivo”.
Aqui na missão acostumamos dizer que um dia parece ter muito tempo. O tempo não é medido e acelerado. O dia termina ou inicia com expressões: “já anoiteceu e já amanheceu”. A noite é feita para dormir. Não se faz mais nada ao anoitecer, além do jantar e do encontro familiar. No ritmo diário se faz uma coisa de cada vez e o tempo real parece ser bem aproveitado. Também se aprende viver e desfrutar do momento presente sem precisar fazer nada. Estar com os outros, ouvi-los ou simplesmente amá-los sem necessidade de produzir, ensinar ou dar algo. A impressão que dá é que o tempo é nosso. Foi dado a nós como oportunidade de estar todo nele na missão que Deus nos confiou.
Neste mundo de poucos relógios e agendas, não se festeja aniversários. Ninguém conhece o dia, mês ou ano de nascimento. As referências são pessoas, acontecimentos ou fatos marcantes. Nasceu no tempo do padre Camilo, antes do ciclone, quando o Morola era rei da tribo. Assim o que determina categorias, idades e fases da vida são outras referências.
No mundo que nasci, onde os relógios estão em toda parte, ouvi sempre pessoas falarem que não tem mais tempo. O tempo lhes foi roubado. Os ladrões ocuparam todo o tempo com agendas lotadas. O paradoxal desta lógica é que não ter mais tempo dá uma satisfação de herói. Convivem conosco estes heróis que há anos não fazem férias e não encontram tempo para si e para os outros, como se tudo dependesse deles. São estes que recebem lugar de destaque e são reconhecidos como vencedores, contudo se tornaram escravos do tempo. Ocupar o tempo desta forma pode dar a sensação de nada ter feito ao término de cada dia, ou ainda mais trágico, nada ter feito no final da vida.
Sem verbalizar agimos como se o tempo fosse dinheiro, por isso não devemos perdê-lo. Desde criança, “nossos educadores” nos ensinaram as leis do mercado competitivo que não admite perdas de tempo. Quem ocupar todo seu tempo chegará por primeiro. Chegará ao topo com muito sucesso e dinheiro, no entanto sem tempo.
Na missão descobri que nós temos o relógio, o calendário e as agendas, mas os africanos é que têm o tempo. Tempo que é governado pelas fases de preparo da terra, plantio, cuidado, colheita e queimadas. Há tempo de espera e de comercialização do produto. Tempo de seca e de chuvas. Tempo de fome e fartura. Tempo de calor e frio. Tempo dos sacramentos e das formações. Na realidade há tempo para tudo e até hoje não ouvi de um moçambicano que não tenho mais tempo.
Aqui os donos do tempo me ensinaram que missão se faz na gratuidade que não se mede e codifica. A missão acontece mais na dimensão do ser que abre brechas no tempo, do que do simples fazer produtivo. Neste sentido, valeram mais as horas e os dias de presença gratuita nas visitas em comunidades.
Assim espero que estas reflexões provoquem novas atitudes e novos olhares sobre o tempo na sua relação com a missão. Que o Pai, dono da missão, continue dando aos trabalhadores da última hora o mesmo salário.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Cândido dos Anjos
Era o nome de nosso sentinela. Vigiou a casa dos padres em Moma por mais de quinze anos, mesmo em épocas sem moradores. Tinha viva a história das pessoas que por ali passaram. Em meio seus cadernos trazia fotos e lembranças daqueles e daquelas que acompanhara nesta casa. Matava saudades simplesmente vendo imagens. Às vezes com suspiros, lamentava do vai e vêm dos habitantes, brancos e estrangeiros, que tampouco acostumara e já era tempo de voltar ao seu país. Mas concluía: “é assim mesmo a vida de missionários, não param”.
A doença que o levou a morte me fez entrar no sistema de saúde mais desumano que já conheci. Em Moma, “há hospital”, onde os doentes estão em tendas de lonas ao lado de um lindo prédio que iniciou sua reforma em 2008. O ministério da saúde ainda não liberou a migração dos doentes das precárias tendas para as novas estruturas por falta de instalações adequadas de água. É comum que pacientes cheguem até a emergência e as consultas com doenças graves e recebam paracetamol ou medicamentos coloridos, sem diagnóstico preciso. A maioria dos casos são encaminhados para cidade de Nampula que fica 210 Km. Mesmo as mulheres que necessitam de cesariana devem ser encaminhadas, pois em Moma não há sala de cirurgias. Há apenas um silencioso sofrimento com morte das mães com suas crianças.
Em Nampula, onde existe um hospital referência para todo norte do país, chegam doentes de vários distritos e províncias em busca de saúde. É mais uma estação desta via sacra. Lá existem poucos médicos especialistas. Chegamos até uma médica de Cuba, urologista. A única para todo o norte com esta especialidade. Quando conseguimos consulta, logo encaminhou internação do Cândido num imenso dormitório superlotado. Havia doentes por todo lado, alguns sentados em cadeiras, porque as camas estavam lotadas e outros deitados em colchões espalhados pelos corredores. Ali naquele calvário de dores e mau cheiro tivemos que deixar nosso amigo sentinela. Não havia outra solução. Fomos buscar vida e sentimos cheiro de morte em todo canto.
Ficou hospitalizado um mês, esperando que lhe fizessem ecografia total. A única máquina era disputada por multidões e ficou parada por uma semana em manutenção. Lá muitas vezes acompanhamos a cruz pesada do Cândido, embora nele não havia revolta e desespero. Logo que saiu o diagnóstico de câncer de bexiga, foi imediatamente liberado para voltar a Moma. Já não havia nada o que fazer. Restara o consolo de voltar a terra onde foi gerado para assim despedir-se. Desde sua chegada em casa, no seu leito sempre haviam vigias da familia que em silêncio contemplavam sua dor.
Depois de sua morte, fui procurar no dicionário qual o significado de Cândido: “inocente, puro”. É assim mesmo. Ele como tantos que conheci em Moçambique são inocentes e puros de coração, vivem na periferia das lógicas ocidentais que aprisionam pessoas e as colocam correndo na mesma direção.
Nenhuma força conseguira acorrentar nosso sentinela. Em meio a dor, paradoxalmente não perdera a serenidade. Morreu pobre e livre. Foi um bem aventurado. Já em vida, dividira seus bens. Ultimamente repetia que viera ao mundo sem nada e voltaria para casa do pai sem nada. Lembrei destas palavras quando fomos ao túmulo no terceiro dia plantar a cruz e flores. Como de costume, entre os cristãos, na madrugada se reúnem na casa do falecido e com orações caminham até o cemitério na certeza da ressurreição e do grão de trigo que morre e produz frutos. Neste dia ninguém mais chorou.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
A doença que o levou a morte me fez entrar no sistema de saúde mais desumano que já conheci. Em Moma, “há hospital”, onde os doentes estão em tendas de lonas ao lado de um lindo prédio que iniciou sua reforma em 2008. O ministério da saúde ainda não liberou a migração dos doentes das precárias tendas para as novas estruturas por falta de instalações adequadas de água. É comum que pacientes cheguem até a emergência e as consultas com doenças graves e recebam paracetamol ou medicamentos coloridos, sem diagnóstico preciso. A maioria dos casos são encaminhados para cidade de Nampula que fica 210 Km. Mesmo as mulheres que necessitam de cesariana devem ser encaminhadas, pois em Moma não há sala de cirurgias. Há apenas um silencioso sofrimento com morte das mães com suas crianças.
Em Nampula, onde existe um hospital referência para todo norte do país, chegam doentes de vários distritos e províncias em busca de saúde. É mais uma estação desta via sacra. Lá existem poucos médicos especialistas. Chegamos até uma médica de Cuba, urologista. A única para todo o norte com esta especialidade. Quando conseguimos consulta, logo encaminhou internação do Cândido num imenso dormitório superlotado. Havia doentes por todo lado, alguns sentados em cadeiras, porque as camas estavam lotadas e outros deitados em colchões espalhados pelos corredores. Ali naquele calvário de dores e mau cheiro tivemos que deixar nosso amigo sentinela. Não havia outra solução. Fomos buscar vida e sentimos cheiro de morte em todo canto.
Ficou hospitalizado um mês, esperando que lhe fizessem ecografia total. A única máquina era disputada por multidões e ficou parada por uma semana em manutenção. Lá muitas vezes acompanhamos a cruz pesada do Cândido, embora nele não havia revolta e desespero. Logo que saiu o diagnóstico de câncer de bexiga, foi imediatamente liberado para voltar a Moma. Já não havia nada o que fazer. Restara o consolo de voltar a terra onde foi gerado para assim despedir-se. Desde sua chegada em casa, no seu leito sempre haviam vigias da familia que em silêncio contemplavam sua dor.
Depois de sua morte, fui procurar no dicionário qual o significado de Cândido: “inocente, puro”. É assim mesmo. Ele como tantos que conheci em Moçambique são inocentes e puros de coração, vivem na periferia das lógicas ocidentais que aprisionam pessoas e as colocam correndo na mesma direção.
Nenhuma força conseguira acorrentar nosso sentinela. Em meio a dor, paradoxalmente não perdera a serenidade. Morreu pobre e livre. Foi um bem aventurado. Já em vida, dividira seus bens. Ultimamente repetia que viera ao mundo sem nada e voltaria para casa do pai sem nada. Lembrei destas palavras quando fomos ao túmulo no terceiro dia plantar a cruz e flores. Como de costume, entre os cristãos, na madrugada se reúnem na casa do falecido e com orações caminham até o cemitério na certeza da ressurreição e do grão de trigo que morre e produz frutos. Neste dia ninguém mais chorou.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Escolinha de Jesus
Que novidade traz este mês missionário?
Aqui em nossas experiências missionárias em Moçambique, vivemos diante de novidades e surpresas cotidianas. Estamos em tempo de sínodo aqui na arquidiocese de Nampula, por isso em nossa agenda de setembro tivemos nove assembléias sinodais nas regiões pastorais. É apenas o primeiro ano de uma longa caminhada. O que me impressiona, é que nenhuma das cento e quarenta comunidades, faltaram nestas assembléias. Chegam caminhar a pé ou vir de bicicletas quarenta quilômetros para reuniões de um ou dois dias. Quando os vejo sentado nas esteiras o dia inteiro de trabalho ou a noite dormindo debaixo dos cajueiros compreendo um pouco do que significa ser missionário.
Tenho refletido de que missão e discipulado são inseparáveis. Quando separamos, corremos o risco de fazer da missão a realização de nossos projetos pessoais. Se não for missão em nome de Jesus na força do Espírito e com envio da Igreja, cai-se na tentação de reduzir a missão em fazer muitas coisas, mesmo que úteis e necessárias. Missão na perspectiva dos relatos evangélicos exige tempo na escolinha do discipulado de Jesus. Nesta escolhinha não há formatura. É um itinerário que se faz passo a passo no seguimento a Jesus.
Sonho com uma escolinha do discipulado que prepare missionários(as) para diferentes frentes de missão. Uma escolhinha baseada no evangelho, sem doutores, mas com testemunhas. Uma escolhinha de itinerários que levam o discípulo (a) a experiência de uma profunda amizade e intimidade com Jesus e sua proposta. O modelo desta escolhinha não seria o mesmo de nossas universidades que herdaram da escolástica o método indutivo. Estas, tem o mérito de formarem bacharéis, mestres e doutores especialistas na argumentação e na racionalidade. Sem desprezar estas, sonho com outro modelo, outro método, o dedutivo-testemunhal.
Nesta escolinha do discipulado não haveria salas de aulas convencionais com mesas, cadeiras e cátedra. Cada aprendiz receberia na inscrição uma Bíblia e um avental. No currículo as aulas práticas ocupariam maior espaço. O enfoque no discipulado teria grande relevância nas reflexões. Os temas seriam divididos em etapas que favorecessem o percurso do discípulo. Os candidatos ficariam na escolinha um tempo suficiente para a experiência de vida comunitária. Os serviços e as despesas de alimentação seriam todos divididos de modo que todos aprendessem lavar, limpar, cozinhar e partilhar.
A Palavra de Deus, a Eucaristia, a oração, a mística e a contemplação, ocupariam tempo privilegiado nesta escolinha. Todos (as) fariam exercícios diários de escuta e silêncio diante do mistério de Deus e de sua Palavra. A disciplina de relevância seria na especialidade de oração e doação da vida aos outros.
Os doutores-testemunhas desta escolinha seriam em humildade, serviço, paciência, diálogo, mística, gratuidade e compromisso com os mais pobres. Os carreiristas que gostam de ocupar os primeiros lugares, os soberbos que gostam de se impor, os mesquinhos de coração, os acomodados, os narcisistas que vivem em função de si mesmos, os capitalistas que tem o seu tesouro no dinheiro e as estrelas que gostam de aplausos não seriam aprovados nesta escolinha. Por isso, não poderiam ser discípulo e em conseqüência não poderiam ser missionários (as).
A novidade desta escolhinha está na radicalidade das opções, no estilo de vida e numa formação sólida que prepare os missionários (as), pois “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não serve para ser Reino de Deus”(Lc9,62).
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A beleza da missão
Entre nós missionários sempre reafirmamos que a missão é um dom do Espírito dado a Igreja. É uma graça que nasceu com o mandado de Jesus, Ide! Aqueles que foram podem dizer pela experiência que há mais alegria em dar do que receber. Os missionários (as) além fronteiras não são heróis ou melhores do que outros por estarem em terras distantes, são na verdade privilegiados que gozam da beleza da missão.
Na primeira quinzena de agosto estiveram conosco partilhando desta graça a visita de dom Jaime Kohl, Pe.Adilson Zílio e Silvane Agnolin do regional Sul III- Brasil. Visitaram comunidades e reuniram-se com os conselhos pastorais para ouvirem suas preocupações. Não faltaram pedidos para que se continue e amplie o projeto missionário enviando mais padres e leigos.
Sem muitas palavras o povo nos disse nas celebrações que é preciso partilhar de nossa pobreza. No momento das ofertas, dezenas de mulheres vinham até o altar com danças trazendo suas tigelas transbordantes com produtos cultivados por elas mesmas. Nós que estávamos próximo ao altar, calamos diante da generosidade daquele povo. Deram com largueza de espírito de seu pouco. Esta intuição da gratuidade deveria impulsionar toda ação missionária da Igreja. “Dê cada um conforme decidir em seu coração, sem pesar ou constrangimento, pois Deus ama quem dá com alegria. Quem semeia pouco colherá também pouco e quem semeia com largueza também colherá com largueza”. Eram estas palavras daquela celebração debaixo do cajueiro. Era o último dia da visita e o Evangelho também nos questionou: “Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” (Jo12, 24).
Faz pensar. Se não dermos o passo de generosamente darmos de nossa pobreza corremos o risco de continuarmos grãos de trigo sem produzir nada. Tenho convicção a partir deste chão Africano que nossas dioceses do Sul Brasil não nasceram para serem grãos de trigo, pelo contrário, o Espírito as convoca a serem grãos que passam pelo processo de morte para produzirem frutos.
Nossa Igreja do Brasil tem muito a agradecer pelos inúmeros missionários “fidei donum” que contribuíram e continuam contribuindo pelo testemunho e pela presença em lugares de fronteira entre os mais necessitados, sobretudo na Amazônia. Nossa hora já chegou de partilharmos com as dioceses mais pobres do mundo aquilo que de graça recebemos.
Também agradeço com alegria os dezesseis anos de presença do Sul III aqui na diocese de Nampula, Moçambique. Na atual equipe de missionários (as) somos cinco pessoas, dois padres e três leigos que atendem duas grandes paróquias com 140 comunidades. No final deste ano voltam os três leigos e o Pe.Luis Cardalda também retorna a sua diocese de Goiás. Fico sozinho e entro num tempo de espera em Deus e confiança em Sua providência.
Para concluir, permito-me partilhar que a poucos dias ouvi de um amigo padre do Sul do Brasil que tem vontade de se lançar na missão além fronteiras, mas lhe falta coragem. Jesus responderia: “Coragem, não tenhais medo”. Às vezes penso que no imaginário dos convidados pelo Senhor da messe, persiste uma idéia irreal de missão associada naquilo que temos que perder, deixar para trás ou morrer. As cruzes das malárias, das perdas, das saudades, das distâncias geográficas e culturais não se comparam com a beleza de estar aqui no meio deste povo, podendo partilhar um pouco de nossas vidas.
Agradeço de coração a visita que a equipe do Brasil nos fez, nos deixando animados pela convicção de que a missão é de Deus e por isso não faltarão pessoas generosas que acolherão o convite de partirem na descoberta da beleza da missão.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Você tem fome de que?

Neste mês de abril de 2010 a mídia internacional pautou assuntos da pedofilia e do caos aéreo. Sobre pedofilia li o texto do sociólogo Máximo Introvigne alisando o assunto como uma “hiperconstrução social” pensada pelos “empresários morais” que se ocupam em produzir pânicos morais. Eles não inventam um problema, o ponto de partida é sempre real, mas exageram suas dimensões estatísticas. O assunto do caos aéreo, aqui em Moçambique passou de longe. Das pessoas que convivemos ninguém fala nem de pedofilia e nem de caos aéreo.
Aqui por onde andamos fala-se de fome e de comida. Aqui nos interiores, tempo de chuvas é tempo de fome. Uma refeição diária é realidade de muitas famílias camponesas. Tudo vira comida: Folhas de mandioca, cupins, sapos e ratos é alimento em muitas regiões. A vida gira ao redor da comida. Ter ou não ter o que comer diariamente é assunto central. É comum ver as crianças mastigando um pedaço de mandioca seca; é o café da manhã. Sempre tenho tentação de comparar com crianças que tem leite com chocolate e bolachas recheadas.
As mulheres no encontro de formação paroquial me colocaram uma preocupação: “Porque não somos consideradas em nossa paróquia”. Comecei investigar com elas o que significa ser considerada. Falavam que nas festas não eram contadas na hora da comida. Os animadores na hora de fazerem listas daqueles (as) que irão comer, não as contaram, incluindo pessoas de outros ministérios. É assunto grave. Contar ou não contar para comida. Os animadores me responderam que às vezes não são contadas porque não há comida para todos.
O Evangelho daquele dia tratava de comida. “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede” (Jo6, 35). Comecei a pensar nas palavras das mulheres e das crianças que vivem a realidade da fome. Pensei em outras fomes e sedes que caracterizam a sociedade capitalista e consumista. O mercado estampa nos menus uma variedade de produtos que não saciam. Corremos atrás daquilo que promete realmente saciar. É uma frustração quando fizemos sacrifício para ter aquilo que pensamos saciar e no fundo não sacia. É algo insaciável. No campo afetivo quantas necessidades e buscas. Na vida das relações quanta sede de poder e promoção. Deus, realmente nos fez insaciáveis no âmbito fisiológico, psicológico e espiritual. Dizia Agostinho: “Meu coração está inquieto. Não descansa enquanto não repousar no Senhor”.
De fato, as fomes e as sedes da humanidade poderiam ser assuntos relevantes na pauta dos “empresários morais”. Poderiam fazer algo de positivo. Falar de fome, suas conseqüências e possíveis respostas. Jesus tratou do assunto, mas não sei se já entendemos. “Quem vem a mim não terá mais fome”. No horizonte de nossos desejos, fomes e buscas, Ele está na lista? Damos tempo para ouvi-lo? A promessa é extraordinária: uma realidade que sacia plenamente. Não ter mais fome e nem sede é utópico num mundo paradoxal de fome e de consumo.
Quando se come deste pão o compromisso aumenta. É uma comida e uma bebida que aponta para utopias onde a lógica é outra. Nesta perspectiva nova, o tempo não significa dinheiro e sim acontecimento. Nas ruas de Moma onde vivemos a cena parece de outro mundo. Nas varandas das casas os pais, envolvidos de filhos desfrutam da vida sem fomes e sedes que produzem estresse. Pelo contrário os olharem e sorrisos que vemos são de pessoas saciadas que já descobriram a comida que dá sentido e saciam vidas.
Talvez nos falte este tipo de apetite eucarístico de ir até Aquele que sacia de sentido existencial mais profundo. As migalhas do mercado nos iludem e nos frustram num círculo vicioso. Que o Pai nos atraia ao encontro de Jesus o pão da vida, descido do céu. Amém.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Nascer do alto

Pentecostes é a grande festa do Espírito. Convite para re-nascermos do alto. Nascer do alto é algo misterioso. Nicodemos já colocara a questão: “Como é que alguém pode nascer se já é velho? Poderá outra vez entrar no ventre de sua mãe?” (Jo3,4).
Para nascer de novo é preciso respeitar o tempo de gestação no Espírito. Para gerar vida no Espírito, qual seria o tempo necessário? Difícil responder, pois a lógica que segue o Espírito é outra. O tempo de Deus é outro.
Confesso que sempre tive a sede de nascer do alto. Ser um homem guiado pelo vento do Espírito e não pelos instintos da carne. Mas esta é uma luta desigual entre carne e espírito. Até hoje não compreendi bem o que significa nascer do alto, da água e do Espírito. Tenho a intuição que esta realidade começa lá dentro, no lugar mais escondido, no coração de cada pessoa. É lá que silenciosamente o Espírito atua, sem grandes barulhos de vozes ou ruídos que possam ser ouvidos. Parece estranho, nascer de novo, do alto e do Espírito.
Na noite de pentecostes de 2008, aconteceu algo estranho comigo ao ler uma das cartas do Pe.Fabiano Dalcin, missionário na Igreja irmã em Moçambique. Nela relatava sua experiência de missão e no final fazia um apelo: “Peço também, e é por isso que vos escrevo, que se unam às minhas orações para pedir ao Espírito Santo que ilumine a Igreja do Rio Grande do Sul e os bispos do regional sul 3, afim de que encontrem meios e pessoas de boa vontade para serem enviados como missionários e missionárias, de modo especial sacerdotes, para darem continuidade a este projeto missionário em Moçambique”(Pe.Fabiano, maio de 2008). Naquela noite relacionei este texto com outros apelos do Espírito. Entre eles o retiro pregado por dom Jaime Kohl, onde nos falava do projeto Igreja solidária com Moçambique. Neste retiro já sentira o apelo do Espírito em partir para missão, mas resisti pensando dar este passo mais tarde. Na mesma noite de Pentecostes decidi escrever ao Pe.Camilo Pauletti, missionário que já esteve seis anos em Moçambique. Relatei minhas inquietações dizendo-lhe também de sete motivos para não partir. Ele contudo, começa respondendo: “Bendito seja Deus, que nos provoca, chama e nos deixa inquietos. Você com este sopro do Espírito, faz a gente acreditar que o Senhor não abandona os mais pequenos”.
Já havia compreendido que para partir seria preciso o parto tão difícil e arriscado. Tomei coragem e fui conversar com Dom Dadeus Grings colocando estas inquietações. Simplesmente ele respondeu: “Quem somos nós para ir contra o Espírito Santo”. Desde aí não olhei mais para traz. O apelo que tanto inquietou tomou seu rumo e me fez atravessar o atlântico ao encontro do desconhecido.
Aquele pentecostes de 2008 foi de fato estranho. Começo acreditar que nada de bom acontece na Igreja e em nossas vidas que não nos seja dado do alto, do Espírito que nos foi concedido pelo Pai em comunhão com o Filho. O parto continua a cada pentecostes e a cada dia. É preciso sempre nascer do alto. Assim diz a epístola aos Romanos: “Nós sabemos que toda criatura geme ainda agora e sofre as dores da maternidade. E não só ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente, esperando a adoção filial e a libertação do nosso corpo” (Rm8, 22).
Comecei entender também que pentecostes é o dia do envio. Neste dia está a essência missionária da Igreja. Naquele dia Jesus reunido com seus discípulos diz: “Assim como o Pai me enviou, também eu envio. E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo20,21-22).
Continuo suplicando que o Espírito suscite inquietações e apelos no coração da Igreja que nos envia. Estamos agradecidos também pelo apoio financeiro que nos mantém na missão de duas paróquias com 140 comunidades na diocese de Nampula. Somos uma equipe de cinco pessoas, dois padres e três leigos. Estamos confiantes que neste pentecostes o Espírito suscitará com sua força homens e mulheres que se deixem nascerem do alto e partirem onde o próprio Espírito os enviar.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
segunda-feira, 8 de março de 2010
Missão sem fronteiras
Depois de mais de dez mil quilômetros e três dias em viagem, eu (Pe.Maurício), Tatiane (arquidiocese de Porto Alegre), Camila e Edenilson (diocese de Osório), chegamos ao aeroporto de Nampula, norte de Moçambique e fomos acolhidos pelo Pe.Luis, missionário espanhol que trabalhou 35 anos no Brasil.
Nossa primeira atividade tratou-se de colocar a casa em ordem, realizando faxinas, reformas e adaptações para a nova equipe do Regional Sul III que viverá na mesma casa e atuará nas paróquias de Micane e Larde, uma com noventa e nove comunidades e outra com quarenta e duas.
Moçambique, situa-se no sul da África e é banhado pelo oceano índico. Tem população aproximada de vinte milhões de habitantes. Teve história marcada pela colonização portuguesa e uma série de guerras, tanto do movimento de libertação, como pós-independência que se deu em 1975. O acordo de paz veio firmar-se em 1992. Desde então o país, embora “independente”, vive um processo de busca de autonomia econômica, social e política.
A educação é uma área que merece destaque para entender melhor a missão que os missionários leigos recém chegados irão atuar: O sistema educacional do país não favorece o ensino para todos. Poucos chegam à escola, chegando a quarenta por cento de analfabetismo. Há histórias de alunos relatando que para passarem de classe precisam oferecer algo ao professor. Um número reduzido chega concluir o ensino médio por falta de condições mínimas, como: dinheiro para matricula, casa para viver na sede do distrito onde há escola secundária, uniforme, cadernos, livros didáticos e outras condições que impedem de continuarem os estudos.
Deste modo a atuação específica dos missionários leigos será no campo da educação através de reforço escolar da oitava a décima segunda classe e também atividades recreativas e culturais. Outro trabalho que irão acompanhar é com um grupo de nove jovens vocacionados. Com eles será realizada formação complementar e acompanhamento pedagógico.
Além desta atuação teremos os desafios pastorais na formação de lideranças, sobretudo jovens e mulheres. Outro projeto que iremos acompanhar é o desenvolvimento de pequenas associações para gerar trabalho e renda que responda a grande problemática da fome. Nesta época do ano, muitos sobrevivem de uma alimentação diária baseada em folhas de mandioca. As crianças nos dizem que a fome os acompanha e não há perspectivas de mudança deste quadro de pobreza.
Também teremos oportunidade de visitas as comunidades do interior, onde no contato com a cultura mackua que é marcada pela festa, dança, simplicidade e alegria na acolhida. Todos olhares se revelam curiosos pela presença de um mukunha (branco) no meio deles. Ficamos em cada comunidade um dia completo, participando das partilhas, celebração eucarística e rodas de batuque a noite. O que sempre nos impressiona é o fato de um povo tão sofrido e marcado pela guerra e pobreza, se mantém na generosidade e na alegria de viver, expressa em sorrisos largos e gratuitos.
Sempre nos parece difícil expressar a riqueza desta experiência missionária. Pedimos sempre que nos acompanhe pela oração e compromisso com este projeto da Igreja do Rio Grande do Sul.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique
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