domingo, 29 de março de 2009

Morte e Vida



Sete meses se passaram desde que atravessei o atlântico para me lançar na missão “ad gentes” e ancorar no mundo e na cultura africana até então por mim desconhecidos. Desta vez escrevo como aluno do curso de língua e cultura Mackua, oferecido pela arquidiocese de Nampula aos missionários estrangeiros.
Aqui é tempo de fortes chuvas e fome. No último final de semana uma comunidade teve que cancelar batismos de crianças por faltas de condições, noutra fiz 26 batizados sem clima de festa, pois não havia alimentos. No término da missa todos voltaram as suas casas. O normal era ficarem na comunidade para preparar o almoço. Escutei de muitas lideranças que neste tempo o povo alimenta-se somente de folhas de mandioca, esperando a colheita do milho que produz uma vez ao ano. Como carril (carne ou molho) encontra-se rãs, gafanhotos ou outros insetos. Ouvi também que uma mãe desesperada se matou por ver que acabara o alimento para seus filhos.
Como falar de morte, cruz, sofrimento, perdas, dor...sem perder a esperança na vida? Na páscoa de Jesus encontramos a resposta definitiva para este binômio morte e vida. Ele nos garantiu que a morte não tem a última palavra. Aqui predomina no povo cristão a motivação de continuar caminhando e lutando para que haja vida para todos. Alguns aqui me dizem que depois da dor da paixão vem a alegria da ressurreição. Esta dinâmica pascal realmente está misturada paradoxalmente na vida do povo Mackua. A luz do círio acesa em cada vigília pascal rompe definitivamente as forças da morte e da tristeza. Agem e vivem como vitoriosos, mesmo mergulhados na dor de crucificados pelo contexto social de pobreza absoluta.
Uma imagem do cotidiano, do norte de Moçambique, que expressa esta realidade de esperança escondida nas situações de morte, é o capim seco e queimado que guarda silenciosamente, durante meses, a vida que se manifesta depois das primeiras chuvas do mês de dezembro.
Neste quinto domingo da quaresma o evangelho nos recordou as palavras de Jesus: “Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto”(Jo12,24). Quem não apreendeu morrer passa sua vida girando em torno de si mesmo; ilude-se que a felicidade mora ao redor do seu umbigo. Nesta lógica pascal a sabedoria de viver bem se esconde na sabedoria de saber morrer.
Também tenho refletido sobre esta experiência pascal de Jesus acontecendo em minha caminhada de padre missionário “fidei donum”. Quando retomo meu projeto pessoal de vida tenho descoberto que sou convidado pelo mestre a renunciar planos pessoais em vista de um projeto maior. Este processo de morte e perdas se transformam em vida nova na perspectiva do seguimento de Jesus. O caminho do discípulo é na verdade o caminho da semelhança com mestre e Ele nos ensinou que não veio fazer a sua vontade, mas a vontade Daquele que o enviou. Esta é a medida do amor.
Uma boa notícia deste tempo pascal é que não estou mais sozinho em Moma. Voltou para arquidiocese de Nampula o Pe.Luiz Cardalga, padre diocesano da Espanha que atuou mais trinta anos na missão do Brasil. Tem 73 anos e já foi missionário aqui em Moçambique. Também estamos felizes com a chegada do leigo Antônio Daniel da cidade de Esteio, arquidiocese de Porto Alegre. Irá morar conosco em Moma e atuará na pastoral das duas paróquias que atendemos. Continuamos na certeza que o Espírito irá suscitar mais vocações missionárias do Rio Grande do Sul.
A todos e a todas saudações e desejo de que a Páscoa de Jesus, morto e ressuscitado, aconteça em nossas vidas e comunidades.


Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Evangelizar a pé


“Wetta ni Yesu orera” (Andar com Jesus é bom). Embalado por este refrão percorri a pé junto com cinco seminaristas mais de cem quilômetros numa peregrinação que durou quinze dias, visitando quinze comunidades. Saímos de Moma dia trinta de dezembro levando em nossas sacolas as recomendações de Jesus aos seus discípulos. “Nada leveis pelo caminho: nem cajado, nem alforje, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas”(Lc9,3).
Ao longo do caminho fomos contagiados pelo espírito de festa do povo. De uma comunidade a outra um grande número de pessoas nos acompanharam, a maioria jovens que percorriam cinco, dez ou quinze quilômetros, cantando e dançando pelas vias empoeiradas ao som de muito batuque. Mesmo enfrentando um forte calor, nada pode abafar a alegria expressa em cada rosto que encontramos.
A pergunta que mais ouvimos trazia um ar de admiração: “Porque andar a pé se o padre tem carro?” “O que houve com o carro? Está na oficina?”. Tentava dizer algo de minhas motivações pessoais, tais como: - Inspiração de Deus dentro do ano Paulino; ir ao encontro do povo e conhecer melhor a realidade. Partilhei com eles que a idéia nasceu numa ocasião quando passava de carro por aquela estrada e vendo tantas comunidades e pessoas a pé, carregando muitas coisas pesadas em suas cabeças, me perguntei: Porque não fazer a pé este caminho?
Fui pouco a pouco descobrindo que o fato de percorrer a pé estas quinze comunidades trazia consigo um forte conteúdo de Evangelização. No principio não imaginei que seria tão grande a repercussão desta escolha. Entendi ao longo do caminho que a iniciativa primeira era do Espírito de Deus e que cada um interpretaria de maneira diferente. Na comunidade de Maculane uma liderança expressou sua posição: “Não se faz evangelização somente de carro”. Um catequista disse que as longas distâncias não podem ser justificativa para se acomodar e ficar em casa esperando a solução cair do céu.
Aqui no chão africano muitas vezes tenho me perguntado o que é mesmo evangelizar. Sempre ouvi que a missão da Igreja é anunciar, pregar, servir, testemunhar, dialogar e formar. Neste caminho vive a forte experiência de evangelizar pela presença gratuita, com meios pobres e com poucas palavras. “Estar com”, visitar, ouvir, partilhar e celebrar a Eucaristia para um povo que fica mais de um ano sem missa, foi o próprio conteúdo pregação.
Neste caminho até Chalaua predomina um cenário de pobreza social. Ouvimos sempre preocupações sobre a fome, a falta de condições para o estudo da juventude e carência de atendimento médico e medicamentos. Como símbolo de exploração do povo, encontramos na contramão uma média de dez caminhões de Chineses que diariamente carregam toneladas de madeira. Algumas áreas de Moçambique já estão desérticas, fruto do desmatamento.
Um dos pontos fortes desta caminhada foi a visita aos doentes. Acompanhados pela comunidade chegamos à casa de quarenta e seis pessoas enfermas em estado grave, a maioria sem diagnóstico, sem atendimento ou remédios. Por isso, apelam para soluções da cultura e religião tradicional. Buscam ajuda no curandeiro e no advinha que receitam medicamentos de plantas naturais. Grande parte morre sem saber a “causa mortis”. Em algumas situações pensei que seria providente que neste caminho estivesse comigo um médico e uma autoridade política. Na maioria dos casos fiquei sem resposta ou encaminhamento diante desta realidade.
Nestes quinze dias de intensa vivência e convívio nas comunidades também aproveitei para rezar pedindo ao dono da messe que envie mais padres gaúchos, religiosos(as) e leigos(as) para este grande campo de missão. Sei do empenho dos bispos e responsáveis pelo setor missionário da CNBB que tem a tarefa de motivarem as dioceses do Regional Sul III para continuarmos no compromisso com nossa Igreja irmã de Moçambique. Desde o inicio de dezembro, com o retorno do padre Fabiano Dalcin ao Brasil, estou como padre sozinho para atender as duas paróquias com cento e quarenta comunidades.
Concluo com a expressão do papa PauloVI: “quem evangeliza, se evangeliza”. Neste caminho o povo nos evangelizou, pregando o evangelho da partilha, da acolhida, do despojamento, da fé comprometida, da sede de Deus na Eucaristia, da força da comunidade, da resistência no sofrimento e da alegria no Cristo ressuscitado.
Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Peregrinação missionária


Terminada as celebrações natalinas onde tive a oportunidade de visitar em dez dias dez comunidades, volto para casa em preparação a uma peregrinação missionária de quinze dias, visitando quinze comunidades. Serão mais de oitenta quilômetros a pé, levando comigo o mínimo necessário, buscando aproximar-me da realidade do povo Macua.
Irão comigo três seminaristas do seminário maior da arquidiocese de Nampula: Mateus, Otávio e Agostinho. São vocações de uma das paróquias que sou pároco. O seminário os envia para férias com uma carta, solicitando acompanhamento e avaliação dos serviços realizados em um mês na paróquia.
A novidade desta peregrinação já se espalhou pela paróquia e muitos me perguntam: Padre porque ir a pé se o senhor tem carro? Tento dizer que foi uma inspiração do ano paulino. São Paulo caminhou muito a pé e não mediu esforços para comunicar a boa notícia de Jesus Cristo e seu Evangelho.
Além da motivação do ano paulino e da vontade de conhecer as comunidades, fiz este programa de visitas porque já percebi a repercussão de uma visita do padre. É uma festa quando chega a equipe missionária, porque algumas comunidades ficam um, dois ou até cinco anos sem celebrar a eucaristia. O povo se organiza e todos os ministérios da comunidade são envolvidos. São momentos fortes de evangelização, partilha, novidades, dança e celebração da eucaristia que ocupa lugar central.
O programa da peregrinação combinado com os anciãos, pastores da comunidade, é: visita as casas dos doentes, confissão, encontro com a juventude, celebração da eucaristia, escuta das preocupações e caminhada até a próxima comunidade.
Serão quinze dias “sem” muitas necessidades que tenho: energia elétrica, rede telefônica, fogão a gás, colchão para dormir, sem chuveiro, xícara de café, garfos e facas para comer. No entanto, serão dias “com”: partilha, convivência, oração, deserto, festa e realização pessoal. É muito gratificante estar no meio deste povo, embora sem condições de “fazer” ou “produzir” algo, nem responder a todas preocupações e pedidos, contudo é uma oportunidade única de estar presente de forma gratuita compartilhando a mesma fé no Cristo morto e ressuscitado. Oportunamente irei compartilhar com vocês esta experiência.
Desejo a todos que 2009 seja portador de uma vida renovada no mestre de Nazaré. Paz!



Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Natal em Moçambique





Nesta noite natalina, escrevo inspirado pelo meu encontro com as pobres crianças africanas. Elas me questionam pelo seu modo de vida simples, sofrida e resistente. Não escolheram a pobreza como virtude evangélica, mas porque são de fato pobres. Desde muito cedo, aprenderam buscar água a longas distâncias, ir para roça cultivar mandioca, vender mangas ou pequenas castanhas. São despojadas no falar, no comer e no vestir. Chama atenção que apesar do sofrimento não poupam largos sorrisos. Em toda parte as vejo com olhares curiosos esperando uma palavra ou gesto que se transforma em festa.
Motivado por estas crianças escrevo com o desejo de que nossos corações, nesta noite santa, se voltem para a pobre gruta de Belém para contemplar o mistério do menino recém nascido. Nele, Deus despojou-se e desceu ao nosso encontro para nos ensinar que o caminho da felicidade autêntica e verdadeira passa pelo mistério da Encarnação. Neste dias tenho refletido que para perceber o real sentido desta noite feliz é necessário também despojar-se e descer ao encontro das pessoas, sobretudo as mais pobres e necessitadas.
Certamente, passarei um Natal diferente dos demais. Em nossa mesa não teremos as especialidades que costuma degustar. Será uma noite sem luzes, músicas e fogos de artifício. Não terei comigo os amigos(as) e familiares que amo. No entanto restará o silêncio da noite que me possibilitará ouvir o cântico dos anjos entoando: “Glória a Deus nas alturas e Paz na terra aos Homens de boa vontade”.
Sempre nas rezas peço para que toda a Igreja seja missionária no lugar onde está situada. Carrego vivo a expressão do documento de Aparecida: “É preciso sair de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária”. Nada de ficar preso as estruturas que impedem de ir ao encontro das pessoas. Sejamos livres para a missão. Para isso precisamos a cada dia viver a graça da “conversão pastoral”.
Gostaria que nesta noite pudéssemos estar celebrando juntos. Como isto não será possível, estaremos em comunhão no mesmo sentimento para escutar os pastores dizendo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria que será para todo o povo, nasceu para nós o Salvador que é o Cristo Senhor”.


Feliz Natal!

Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário em Moçambique

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A alegria que vem do sofrimento



Na vida cotidiana do povo Moçambicano há uma mistura paradoxal de alegria e sofrimento. É um povo que sofre pela falta de necessidades básicas de alimentação, água potável e atendimento na área da saúde. Caminham longas distâncias de até 50Km em busca de atendimento médico, e na maioria das vezes voltam para casa sem solução. Muitos ainda se deslocam 15Km em busca de água. As lideranças da paróquia percorrem de bicicleta mais de 20Km para uma reunião do conselho paroquial. No entanto não poupam largos sorrisos, olhares serenos e fé confiante para continuidade da missão. Alegria e sofrimento são duas realidades aparentemente contraditórias que caminham juntas e na perspectiva da fé cristã assumem dimensão de ressurreição.
Tenho me lembrado muito de São Paulo aqui neste contexto. Na perseguição, prisão e sofrimento ao invés de escrever uma carta cheia de amargura, convoca a comunidade de Filipenses a alegria: “Alegrai-vos no Senhor! Repito: alegrai-vos!”(Fl,4,4). Inspirado por este grande apóstolo farei uma peregrinação missionária a pé de 80Km, visitando e celebrando em quinze comunidades. Saio de Moma, onde resido, no dia 30 de dezembro e chego em Chalaua no dia 14 de janeiro. Comigo irão três seminaristas da filosofia e teologia de nossa paróquia. Certamente passarei um ano novo diferente dos demais, não menos feliz por acreditar que estou cumprindo uma missão que recebi de Deus.
Pastoralmente ainda estamos celebrando batismos de crianças com visitas nas comunidades. Encontrei a poucos dias uma comunidade que a seis anos não celebrava a Eucaristia, isto num universo de 140 comunidades nas duas paróquias. Na hora de fazer o programa no conselho pastoral nos vemos limitados por não conseguir atender as reais necessidades e pedidos de visita do padre as comunidades. Ficam esperando para que este dia se concretize. É muito desafiador e ao mesmo tempo realizador ser padre neste ambiente de missão. Não há espaço para perder tempo ou ocupar-se com desvios do ministério.
A volta do Pe.Fabiano ao Brasil depois de uma missão bem cumprida, faz com que pessoalmente comece um tempo de deserto e espera de outro padre gáucho para compartilhar esta missão. Sei dos esforços que os bispos e toda Igreja do Rio Grande do Sul estão fazendo para que este compromisso missionário continue além fronteiras. O povo daqui continua rezando pedindo que o Espírito Santo convoque mais missionários.
Desejo a todos(as) que neste Natal nossos corações se voltem para o mistério escondido na pobre gruta de Belém, onde Deus despojou-se e veio ao nosso encontro para nos comunicar que o caminho da felicidade autêntica e verdadeira passa pelo mistério da encarnação. Gostaria de tê-los celebrando comigo de uma forma muito simples, como isto não será possível estaremos em comunhão para ouvir, de lugares tão distantes, a voz dos pastores dizendo: “Eis que vos anuncio uma grande alegria que será para todo povo, nasceu para nós o Salvador que é o Cristo Senhor”. Muita Paz e alegria na missão que o Espírito nos confiou.



Pe.Maurício da Silva Jardim
Missionário na Igreja irmã de Moçambique

domingo, 26 de outubro de 2008

Comunicar-se è preciso....


Curioso, como sou, vou aos poucos descobrindo o universo juvenil moçambicano. Partilho com vocês minha participação num encontro paroquial da Pastoral da Juventude com jovens coordenadores dos grupos das comunidades. Para conhecer um pouco de sua realidade, dividi-os em pequenos grupos com a seguinte questão: O que o jovem pensa, vê, ouve, cheira, fala, faz, sente e por onde anda?
Com olhar sereno, jeito tímido e voz suave disseram que o jovem do norte de Moçambique pensa em prolongar sua vida juvenil e continuar no grupo. Eles vêem jovens sem estudar e sem participar da comunidade. Ouvem coisas boas e ruins, cheiram a novidade da Palavra de Deus. Falam da falta de livros, da preocupação com a salvação e de não se casarem catolicamente. Fazem adultérios, divórcio e caridade. Sentem dificuldades de acesso a escola, de perseverança na comunidade e andam por caminhos de tentações.
É complexo definir o que é juventude neste país de rosto jovem com sessenta por cento da população com menos de vinte cinco anos de idade. Aqui crianças e adultos, na minha visão, participam dos encontros de jovens. Identificam-se como jovens, embora já com filhos e com vida independente.
Andam em grupos, procuram trabalho e lazer. Encontro-os indo para escola, a mesquita, a Igreja e caminhando pelas ruas empoeiradas. Paro nas esquinas para criar comunicação, ouvindo suas dúvidas sobre o mundo da América Latina que apenas ouviram falar. Gostam de futebol, mas não conseguem comprar uma bola. Estão desconectados das informações do que acontece no mundo e na política local.
Embora a problemática de acesso ao ensino de qualidade, ao sistema de saúde falido, a contaminação do vírus HIV, o desemprego, não lhes falta comunicação pessoal e a alegria expressa em largos sorrisos. Valorizam a simples presença. Falam pouco e observam muito. Escondem uma sabedoria na relação com o tempo. Vivem longe da lógica de que “tempo é dinheiro”. O tempo está a serviço da vida e da felicidade. São donos do tempo. Passam horas partilhando vidas e contemplando o mundo ao redor. Comunicam sem palavras que crêem em Deus, comunidade de amor.
Antes de sair do Brasil alimentei-me da novidade dita no documento Evangelização da Juventude: “É preciso aprender a ler, na juventude, as sementes ocultas do Verbo (nº. 80), aprendendo a ver um Deus que é real dentro do jovem no seu modo juvenil de ser, isto é, considerar o jovem como lugar teológico, considerando que Deus nos fala pelo jovem (nº. 81)”. Estas reflexões ficaram vivas no coração. Lembro disso e também aplico no meu encontro com a juventude africana. Sempre repito em voz baixa: Eles são uma realidade teológica que é preciso apreender a ler e desvelar. Este novo olhar tem me ajudado a criar comunicação e superar pré-conceitos do meu imaginário juvenil.
Estou em comunhão com todos(as) que estão celebrando o Dia Nacional da Juventude. Aqui em terras africanas sinto-me entrando no túnel do tempo, longe do mundo das comunicações virtuais. Aqui ainda se pauta a necessidade de construir latrinas e casas de banho no centro de formação paroquial. Outra novidade é o curso de datilografia que quatro lideranças da paróquia estão fazendo. A comunicação é sempre pessoal e talvez seja ainda a forma mais eficaz de criar verdadeiras relações.
Na verdade, tenho pouco a dizer. Proponho-me a escutar mais para desvelar este mistério de Deus que se esconde na juventude no seu modo de ser, agir e comunicar-se.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Ainda não descobri minha missão em Moçambique...

Quarenta dias se passaram desde que cheguei na África e ao chegar o mês missionário encontro na liturgia a inspiradora figura de Santa Teresa do menino Jesus. Seu caminho espiritual carregava a pergunta: “Qual minha vocação na Igreja?”. Lendo os escritos paulinos, ela se deparou com a primeira carta aos Coríntios (capítulo XII e XIII), onde percebeu que nem todos podem ser ao mesmo tempo apóstolos, profetas, doutores, etc..., que a Igreja é formada por membros diferentes e que os olhos não podem ao mesmo tempo ser as mãos.
Meus sentimentos nestes dias trazem a mesma questão. Qual minha missão em Moçambique? Das primeiras vivências permito-me levantar alguns questionamentos:
Quando visito as comunidades e me encontro com as crianças e jovens, tenho a impressão de que minha primeira missão é ser presença gratuita. Não dizer muito, simplesmente ser presença. Visitá-los, ouvi-los, ousar conhecer um pouco de sua cultura, responder suas curiosidades, entrar em suas casas e sentar-se ao chão para uma refeição.
Quando me dou conta da seriedade do itinerário catequético das comunidades. Quatro anos de iniciação cristã. Vejo a necessidade e espera pelos sacramentos do batismo, eucaristia, reconciliação e matrimônio. Os batismos chegam a dois mil em apenas um ano nas duas paróquias que atendemos. Aí percebo minha missão sacerdotal de celebrar os sacramentos e proclamar a Palavra de Deus.
Quando vejo e ouço sobre a falta de água e comida em tempo de seca, penso na missão necessária de apoiar e acompanhar os projetos de construção de poços, cisternas e dos barcos para pesca. São oito poços construídos a cada ano em nossas comunidades e como experiência piloto há duas cisternas e dois barcos de pesca em funcionamento.
Quando estou em nossa casa em Moma, vivo a experiência de descer até Nazaré e viver o cotidiano entre os visinhos do distrito de mais de quarenta mil habitantes. Aqui minha missão é mais oculta, não menos necessária. É neste espaço que permito-me refletir, ler e escrever, claro sem deixar de varrer o chão, lavar roupa e cozinhar.
Santa Teresa, na sua busca vocacional descobriu enfim sua missão: “No coração da Igreja eu serei o amor”. Penso fundamental esta iluminação. Nossas atividades pastorais precisam ter coração, não só cabeça. Os encontros se dão com pessoas e não com idéias e projetos. Aí começo intuir um pouco de minha missão. Mas confesso que nesses primeiros quarenta dias tenho a tentação de dar respostas e de resolver meus questionamentos. Aí surgem exemplos do meio do povo que pregam o evangelho sem usar palavras. Suas vidas falam do caminho do despojamento, da gratuidade e dos valores do Reino de Deus. Impressionou-me no último final de semana três crianças de nove ou dez anos que caminharam quinze quilômetros para participarem dos sacramentos em outra comunidade. Chegaram as 8h na Igreja para celebrarem a eucaristia. Depois do almoço, o Amissi José, o Gildo e a Gilda voltaram conosco porque também em sua comunidade chegara o dia prometido de visita da equipe missionária.
Nos caminhos longos que percorremos pelas estradas de chão cheias de buraco é que me vem estes sentimentos. Estes últimos quarenta dias me fizeram muito bem e talvez sejam os mais intensos do meu caminho percorrido. Tiveram gosto de um retiro prolongado e inquietante sobre minha nova missão. Deus continue me conduzindo por caminhos de abertura missionária onde o evangelizador se deixe evangelizar.

Pe.Maurício Jardim – 1 de outubro de 2008.
Missionário em Moçambique - África